IA: Um Novo Renascimento

Última atualização: 27 de março de 2024
Tempo de leitura: 5 min

O Renascimento foi um período de profunda transformação cultural, artística, política e científica na Europa, marcado pelo redescobrimento e reinterpretação dos valores e conhecimentos da Antiguidade Clássica. De maneira similar, a Inteligência Artificial (IA) é, nos dias de hoje, um catalisador para mudanças significativas em diversas áreas da sociedade.

A IA possibilita novas formas de resolver antigos problemas e abre caminhos para descobertas em diversos campos. Está mudando aspectos da vida cotidiana, do trabalho, da educação e do entretenimento, assim como da arte e da criatividade, seja através da criação assistida ou pela transformação de como consumimos conteúdo e informação. Ela está provocando novas questões e teorias na ética, na filosofia da mente e na epistemologia, obrigando-nos a enfrentar questões de privacidade, viés e desemprego, entre tantos outros impactos do dia a dia.

Porém, o Renascimento não foi um período uniformemente positivo e teve suas complexidades e contradições. A prosperidade não foi distribuída igualmente. O comércio de escravos era uma atividade normal. Tivemos conflitos religiosos intensos e duradouros. O questionamento e a crítica da Igreja e de suas práticas poderiam levar a acusações de heresia e perseguição. Os povos indígenas foram explorados e subjugados. Crenças supersticiosas e práticas pseudocientíficas ainda eram comuns. A alquimia, a astrologia e outras formas de magia eram praticadas ao lado de investigações científicas mais rigorosas. O papel das mulheres era insignificante e existiam restrições artísticas.

Parece absurdo, mas as ruas europeias naquele tempo eram frequentemente manchadas por dejetos humanos, lançados das janelas devido à ausência de uma rede de esgoto eficiente. Um retrocesso notável em comparação com as conquistas sanitárias anteriores. As civilizações mais antigas, como a romana, grega e a maia, possuíam sistemas de canos para evacuação, e o banho corporal era valorizado. Em um contexto diferente, isso espelha um paralelo atual na forma como nos comunicamos e nos informamos. Hoje, os “dejetos” são lançados pelas redes sociais, e nem parece que no passado recente existia um arcabouço jornalístico estruturado para consumirmos notícias e informações.

Enquanto avançamos extraordinariamente com a IA, abrindo portas para inovações na saúde, na educação e na economia, paradoxalmente, enfrentamos um crescente descrédito na ciência. As mudanças climáticas, um desafio cientificamente comprovado, são frequentemente questionadas. O ceticismo em relação às vacinas e a proliferação de fake news ameaçam até a estabilidade democrática. Essa contradição moderna é um reflexo da complexidade do comportamento humano. A mesma sociedade que cria algoritmos capazes de otimizar cadeias de suprimentos e prever tendências econômicas também se debate com teorias da conspiração e negacionismo.

Neste contexto, comunicadores, jornalistas e educadores de mídia têm a responsabilidade não apenas de informar, mas também de orientar o público, promovendo o pensamento crítico e a alfabetização midiática. Devem atuar como pontes entre o conhecimento científico e o público, desempenhando um papel vital na luta contra a desinformação e o sensacionalismo. Ao apresentar informações de maneira clara, precisa e acessível, esses profissionais ajudam a desmistificar conceitos científicos complexos e destacar a importância de políticas baseadas em evidências.

Olhando para a história, devemos aprender com os erros do passado e abraçar o conhecimento e a razão para construir um futuro mais iluminado e sustentável. Exemplos não nos faltam, reforçando que o progresso não é linear; é uma jornada cheia de contradições e aprendizados. Assim como superamos os desafios sanitários da Idade Média, temos o potencial para superar as dissonâncias cognitivas de nossa era, mas isso exigirá um compromisso coletivo com a verdade, a ciência e o bem-estar comum.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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