
Última atualização: 21 de janeiro de 2026
Tempo de leitura: 7 min
O G-Zero de Ian Bremmer não é apenas um vácuo de liderança — Vácuo ou Sobreposições — é uma análise desconfortável de algo mais profundo: a governança real do mundo está no regime de interferência entre Estados, plataformas digitais e cadeias críticas. Bremmer descreve o vazio, mas a superfície desse vidro está cheia de impressões digitais.
Fareed Zakaria já havia antecipado a ideia de um mundo pós americano em que o poder relativo dos Estados Unidos encolhe sem que surja um sucessor evidente. Kishore Mahbubani faz o contraponto asiático que desmonta a narrativa de declínio inevitável e coloca a ascensão da China como reequilíbrio histórico, não como anomalia. John Ikenberry insiste que a ordem liberal é resiliente, um sistema que deforma e não quebra, porque as instituições e interdependências que construiu continuam fornecendo bens públicos. Parag Khanna desloca o centro de gravidade para as infraestruturas de conectividade e sugere que mapas de cabos, rotas logísticas e sistemas de pagamento dizem mais sobre poder do que bandeiras em mastros. Joseph Nye lembra que poder é também atração e reputação, e que quem controla os significados controla as coalizões. Henry Farrell e Abraham Newman mostram que interdependências podem ser militarizadas, que tarifas e sanções são menos relevantes do que a capacidade de fechar válvulas informacionais e financeiras em pontos de estrangulamento da rede. Adam Tooze chama de policrise a sobreposição de choques que se amplificam mutuamente, um estado sistêmico em que a solução de um problema desloca a pressão para outro ponto. Peter Zeihan, por sua vez, narra o desengate das cadeias globais como inevitável e a volta das geografias duras como força moldadora do comércio e da segurança. Shoshana Zuboff expõe como a extração comportamental reconfigura o contrato social, de modo que a soberania dos dados muitas vezes supera a soberania territorial. Evgeny Morozov, sempre cético, desmonta o solucionismo e nos lembra que tecnologia sem projeto político amplia assimetrias. Balaji Srinivasan projeta o Estado em rede e desafia o G‑Zero com uma tese radical: a nova governança pode emergir de comunidades digitais com tesourarias e enforcement próprios, fora do modelo vestfaliano. Christopher Miller, ao contar a guerra dos chips, dá substância material à discussão e explica por que litografia extrema, patentes e know how de fornecedores nichados são novas armas geopolíticas. Niall Ferguson adiciona o ângulo das redes e do contágio, não só epidemiológico, mas financeiro e informacional, e como choques se espalham por topologias que poucos reguladores conhecem de fato.
O que muda quando colocamos todas essas lentes sobre o tabuleiro é que o G‑Zero deixa de ser uma falta de centro e passa a ser uma superposição de centros. Empresas de tecnologia, consórcios industriais e alianças ad hoc já operam como minigolpes de realidade. Elas regulam conteúdo, determinam interoperabilidade, definem taxas de descoberta de conhecimento por meio de modelos de IA e até reorganizam incentivos fiscais entre jurisdições. O ponto crítico é que, enquanto diplomatas trocam notas, plataformas trocam parâmetros. E parâmetro vira política pública de fato quando modela crédito, triagem de risco, visibilidade midiática e reputação.
Vamos denominar isso de “vantagem quântica” geopolítica — Vácuo ou Sobreposições. No laboratório, a vantagem quântica é a capacidade de resolver classes de problemas antes inacessíveis. No mundo que descrevemos, a vantagem está em manter simultaneamente válidas narrativas que seriam mutuamente exclusivas no velho manual. O pós americano de Zakaria, a resiliência liberal de Ikenberry, a correção asiática de Mahbubani, a conectografia de Khanna, a arma de interdependência de Farrell e Newman, a policrise de Tooze e a desglobalização de Zeihan, tudo isso é verdadeiro ao mesmo tempo em subespaços diferentes do sistema. Nada colapsou porque ainda não houve medição definitiva. A medição, aqui, é a crise que força escolhas, a sanção que fecha um mercado, o boicote que redistribui demanda, a falha num nó de chips que redefine uma década de produtividade. Até lá, corporações podem vender para ambos os lados, governos podem discursar em duas direções e cidadãos podem habitar bolhas cognitivas com lógicas completas e incompatíveis.
Há um custo escondido nessa superposição. Organizações que otimizam para um único modelo de mundo, ainda que elegante, ficam míopes. O colapso não ocorre na teoria, ocorre na sua estratégia, que mediu a coisa errada. Se a arma é a interdependência, reputação vira infraestrutura. Se a disputa é por chips e dados, governança de PII equivalerá a controle de rotas marítimas no século passado. Se redes são o meio de contágio, redundância informacional e ativos distintivos tornam se diques. Se o mundo é policrise, métricas lineares vão te iludir com estabilidade antes do precipício.
É aqui que inteligência de mídia deixa de ser monitoramento e vira radar. Não se trata de contar menções, mas de ler o campo de força por trás delas. Disponibilidade mental é geopolítica em escala de consumidor. Marcas e instituições vivem ou morrem pela sua capacidade de estar presentes no momento de escolha, e essa presença é um produto de memória e contexto. No G‑Zero midiático, atenção e intenção são moedas que lastreiam licenças para operar.
IA aplicada à comunicação acrescenta uma camada tática. RAG é mais do que engenharia de prompt, é uma disciplina de governança de fontes. Num ambiente em que cada narrativa tem respaldo parcial, o que você injeta no seu sistema como base de recuperação decide se a sua máquina amplifica paranoias ou produz sentido. Dados proprietários bem rotulados funcionam como reservas estratégicas. Sem eles, sua IA se informa no mesmo lago turvo que alimenta seus concorrentes e inimigos. Com eles, você consegue projetar cenários que aceitam contradições locais sem entrar em curto. A vantagem quântica deixa de ser metáfora e vira prática: manter hipóteses em superposição enquanto o custo de colapso é alto e só decidir quando um sinal de realidade, validado por fontes confiáveis, exigir ação.
Há também o papel das big techs como quase Estados. Bremmer acerta quando aponta que elas governam plataformas onde se exerce cidadania cotidiana. Só que a consequência menos óbvia é este deslocamento de responsabilidade. Votamos em governos, mas a curadoria que decide o que vemos e o que conta como evidência reside num conselho de produto e numa equipe de segurança que responde a KPIs particulares. Zuboff chamaria isso de assimetria epistemológica. Eu chamaria de política de parâmetros. Se você ignora isso, está terceirizando sua licença social para um pipeline que nunca leu seu plano estratégico.
Podemos insistir em coerência binária e escolher um profeta único, mas o mundo real já operou o hack — Vácuo ou Sobreposições. O colapso virá, mais cedo ou mais tarde, em forma de evento que seleciona uma base de verdade e descarta as outras por um tempo. Pergunta honesta: estamos preparados para performar sob qualquer uma das colapsadas, sem perder identidades? Isso exige desenho institucional, não slogans. Exige contratos de dados que resistem a sanções, mensagens que sobrevivem a choques de humor social, produtos informacionais que antecipam deslocamentos da janela de Overton.
A narrativa conforta quando é única. Já a estratégia só funciona quando suporta ambivalência. O gesto de maturidade é admitir que o G‑Zero não é um vazio a ser preenchido por um novo hegemón, é uma arquitetura de superposições que recompensa quem mede certo, governa dados com precisão e opera com intencionalidade. No dia em que o mundo colapsar para uma das versões, quem prospera não é quem tinha a tese mais elegante, é quem treinou para todas.
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