Quem sou eu?

Última atualização: 7 de janeiro de 2026
Tempo de leitura: 5 min

Entrei na faculdade (FEI) em 1981 acreditando que os circuitos iam explicar o mundo. Quem sou eu? Alguém que acabou se formando em química industrial acreditando que, por trás de cada equação, havia gente. Desde então caminho com um pé na tecnologia e outro no comportamento. Passei por laboratório, por sala de aula, por marketing e pós-graduação. Vivi de perto a disciplina japonesa durante 18 anos na Fujitsu, onde aprendi que inovação só se sustenta quando vira processo, e que processo só sobrevive quando é compreendido por pessoas de carne e osso. Depois vesti a camisa do empreendedor e fui para a rua pesquisar, atender clientes, errar, ajustar rumo, escrever um livro, construir metodologia. Nas agências de publicidade e branding, descobri que marca é uma conversa contínua e que comunicação não é verniz, é arquitetura de sentido.

Em 2010, as redes sociais escancararam aquilo que eu já intuía: informação é movimento. Vieram os sistemas de informação, o big data, as promessas do 5G, o parêntese psicodélico do metaverso, a febre das criptomoedas, o rigor da blockchain e a sofisticação da tokenização. Agora, vivemos a fase da inteligência artificial em escala, enquanto a computação quântica pisca no horizonte como farol de longo alcance. A tentação é tratar cada onda como um fim em si mesmo. Eu prefiro ver o oceano. Essa visão aceita a ambiguidade sem confusão e lê sinais antes do “colapso”.

Nos últimos anos, transformei essa pergunta em prática. Analisei a intencionalidade por trás de textos, imagens e sons, porque o que se diz importa menos do que o porquê se diz. Refinei métricas que olham além da superfície, que distinguem o discurso informativo do persuasivo, o manipular do entreter, o social do ruído. Criei instrumentos para entender a absorção das mensagens, se passam raspando, se exigem análise, se ficam gravadas. No lugar do fetiche pelo número, busco contexto. No lugar do gráfico que conforta, procuro o padrão que desloca. Aprendi que rótulos são temporários e que metadados são descrições comprimidas que liberam narrativas que exigem técnica e sensibilidade.

A IA acelerou o que já estava colocado. Modelos generativos baratearam rascunhos, mas não compram visão. Ferramentas preditivas ajudam a mapear probabilidades, porém não substituem o gesto de escolher. O que “colapsa” a superposição em avanço, e não em imitação, é a capacidade de formular boas perguntas e traduzir respostas em estratégia. É aqui que entram minhas duas paixões de origem. A tecnologia me dá escala, rastreabilidade, modelos de mundo. O comportamento humano me dá direção, critério, ética aplicada. Sem as duas, sobra ruído. Com as duas, nasce valor.

E a computação quântica? Não é um troféu na estante. É um convite para reprogramar a intuição. O pensamento clássico nos treinou a preferir linha reta, causa e efeito, previsibilidade. O quântico lembra que sistemas se influenciam, que estados convivem, que o observador importa. Em comunicação, observar é medir e medir é influenciar. Quando levo essa lente para comunicação e mercado, enxergo estratégias que aceitam ambiguidade sem virar indecisão, que trabalham cenários simultâneos, que medem impacto não só no clique, mas no repertório. Vejo marcas que param de gritar e começam a escutar, organizações que saem da ansiedade de parecer atuais e escolhem ser relevantes.

Meu momento é este: juntar engenharia de informação com antropologia de decisão. Projetar produtos que enxergam o todo sem perder o caso, que facilitam o trabalho de quem precisa decidir hoje com responsabilidade sobre o amanhã. Transitar de clipping e monitoramento para inteligência, de coleta para compreensão, de relatório para conversa que orienta ação. Construir pipelines onde humanos e modelos colaboram sem fetiche nem pânico, cada um fazendo o que faz melhor. Usar ontologias e grafos quando o problema é relação, usar RAG quando o problema é memória, usar estatística quando o problema é risco, usar narrativa quando o problema é sentido.

Não persigo tendência para estar na moda. Persigo estrutura para sustentar o novo. Se um dia eu falava de social media como praça pública, hoje falo de ecossistemas informacionais como paisagem de poder. Se antes eu media a falida e questionável audiência, hoje avalio intenção. Se antes eu contava histórias, hoje desenho contextos onde histórias certas acontecem. O que me move é uma visão prática: reduzir a distância entre o que os dados mostram e o que as pessoas realmente vivem. A tecnologia, para mim, é instrumento de clareza. A comunicação, compromisso com consequência.

O mundo que vem não é um lugar onde as máquinas substituem pessoas. É um lugar onde quem entende de gente e domina ferramentas cria vantagens justas e duráveis. Acredito que estou preparado para isso porque passei décadas ligando pontos que muitos viam separados. Trago a disciplina de engenheiro, a lógica do químico, a escuta do comunicador e a curiosidade do estrategista. Não tenho respostas prontas. Procuro por métodos, perguntas e opções. E a certeza de que o próximo salto não será apenas técnico. Será cultural. Minha contribuição é ajudar a construí-lo com lucidez, propósito e resultados que façam sentido para quem decide e para quem vive as dificuldades e responsabilidades das decisões.

Compartilhe:

Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

Posts relacionados
A Grande...

Se analisarmos os oito últimos anos de relacionamento da IA, os usuários...

Leia mais >
A Próxima...

A computação quântica sempre esteve envolta em uma aura de mistério,...

Leia mais >

Entre em contato

Descubra como a sua empresa pode ser mais analítica.