Minha Fraude Preferida

Última atualização: 18 de fevereiro de 2026
Tempo de leitura: 5 min

Existe uma fraude acontecendo agora, diante dos seus olhos, e você provavelmente a financia. Mais curioso ainda: você a defende. Minha Fraude Preferida não envolve esquemas financeiros sofisticados ou golpes elaborados do submundo corporativo. Ela está muito mais próxima: é algo que você carrega no bolso e consulta algumas vezes por dia. Estou falando dos influenciadores digitais e da arquitetura de engano que construíram com nossa cumplicidade silenciosa.

Há algumas décadas, a sociedade desenvolveu um termo pejorativo para profissionais de marketing desonestos: os “marketeiros”. Esses indivíduos eram conhecidos por prometer o que não podiam entregar, por manipular informações e por vender ilusões embaladas como soluções. A desconfiança era automática e merecida. Curiosamente, quando as redes sociais trouxeram os influenciadores, profissionais que executam práticas infinitamente mais questionáveis, a sociedade não apenas os aceitou, mas os celebrou. Milhões de seguidores, contratos milionários, status de celebridade. A pergunta incômoda é: por que condenamos uns e aplaudimos outros quando ambos, em essência, fazem a mesma coisa, só que os segundos com muito mais eficácia na arte do engano?

A resposta não está apenas no entretenimento ou na democratização do acesso. Está em algo mais insidioso: a fraude moderna aprendeu a se disfarçar de autenticidade. Quando você assiste a um comercial na televisão, seu cérebro imediatamente ativa defesas críticas. Você sabe que alguém está tentando vender algo. Existe uma distância clara entre você e o vendedor. Mas quando um influenciador mostra sua “rotina matinal”, seu “produto favorito” ou seu “segredo de beleza”, ele não está vendendo. Ele está compartilhando. Ou pelo menos é isso que seu cérebro processa. A fronteira entre propaganda e vida pessoal foi deliberadamente borrada até desaparecer. E nessa confusão mora a fraude.

Toda fraude, no sentido ético e legal, requer três elementos: a intenção de enganar para obter vantagem indevida, o dano ou prejuízo à outra parte, e um contexto onde se espera verdade. Analise friamente a atividade central dos influenciadores através desses critérios. Primeiro, a intenção: personas são meticulosamente construídas, vidas são editadas para criar aspiração, produtos são promovidos não por mérito, mas por pagamento. A autenticidade, o produto mais valioso que vendem, é fabricada. Segundo, o dano: seguidores gastam recursos em produtos ineficazes, desenvolvem transtornos comparando-se com realidades impossíveis, e tomam decisões prejudiciais baseadas em “recomendações” que são, na verdade, anúncios pagos não declarados. Terceiro, e mais cruel, o contexto: influenciadores cultivam deliberadamente a ilusão de proximidade, de amizade, de compartilhamento genuíno. Criam a expectativa de verdade para sistematicamente violá-la. Se isso não é fraude, então a palavra perdeu significado.

Mas aqui reside o verdadeiro enigma: por que essa fraude específica foi normalizada enquanto outras são veementemente condenadas? A explicação não pode ser simplista. Não basta dizer que é porque nos entretém. Existem forças estruturais protegendo esse sistema. Primeiro, há um vácuo regulatório conveniente. Enquanto televisão e rádio operam sob regulamentação pesada, as redes sociais permanecem numa terra de ninguém legal. Quando a lei finalmente chega, o comportamento já está tão normalizado que qualquer tentativa de regulação é vista como censura. Segundo, existe interesse econômico difuso. Diferente de fraudes tradicionais que beneficiam poucos, esta enriquece muitos: plataformas, marcas, agências, os próprios influenciadores e até os seguidores que sonham ser os próximos. Quando todos lucram, todos se calam.

Mais perturbador ainda é o analfabetismo midiático geracional. Estamos criando gerações inteiras incapazes de distinguir conteúdo editorial de publicidade paga. Crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento, são expostos diariamente a manipulação psicológica sofisticada sem qualquer defesa crítica. E muitos adultos tampouco percebem quando estão sendo manipulados. A linguagem foi cooptada: “criador de conteúdo” soa muito mais nobre que “vendedor pago”, “autenticidade” mascara propaganda ensaiada, “comunidade” disfarça audiência comercializável. Cada termo foi cuidadosamente escolhido para sanitizar a transação comercial que realmente acontece.

Talvez o aspecto mais perturbador dessa fraude seja que suas vítimas não se reconhecem como vítimas. Elas defendem ativamente quem as engana. Sentem conexão emocional com quem as explora. Essa é uma violência particularmente cruel porque é internalizada e negada. Compare com outras fraudes: quando alguém descobre que foi enganado financeiramente, há indignação, há denúncia, há consequências. Mas quando percebem que aquele “produto milagroso” não funciona ou que aquela “vida perfeita” era mentira, a resposta típica é racionalizar, minimizar ou simplesmente seguir em frente para o próximo influenciador.

Vivemos sob uma ideologia que sacraliza a liberdade de escolha individual. Questionar influenciadores é visto como paternalismo. Mas liberdade de escolha sem informação honesta não é liberdade, é ilusão de liberdade. É como dizer que alguém escolheu livremente ser enganado. A fraude se esconde perfeitamente sob o manto do livre mercado e da responsabilidade individual. E assim permanece intocada, crescendo, sofisticando-se.

Você provavelmente terminou de ler este texto e sentiu um desconforto. Talvez esteja pensando nas contas que segue, nos produtos que comprou, nas decisões que tomou baseadas em “recomendações autênticas”. Esse desconforto é o início do despertar. A fraude que você aplaude continua sendo fraude, mesmo quando vem embalada em filtros bonitos e legendas inspiradoras. A única diferença é que você foi convencido a financiá-la voluntariamente.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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