Hype de IA ou Hype da Bolha de IA?

Última atualização: 11 de fevereiro de 2026
Tempo de leitura: 5 min

Há algo curioso no modo como o mercado fala de bolhas. Quando uma tecnologia explode em popularidade, investidores, analistas e jornalistas se apressam em dizer que “já vimos esse filme antes”. É o rótulo instantâneo da era das pontocom, usado para tranquilizar quem teme o desconhecido e para zombar de quem aposta demais. Só que talvez estejamos assistindo a outro tipo de fenômeno. O que se inflou não é exatamente uma bolha de IA, e sim o hype da ideia de que estamos em uma bolha. A diferença é sutil, mas profunda.

Nas pontocom, o capital era frágil e disperso. Pequenas startups dependiam de investidores de risco e de uma bolsa eufórica. O valor de mercado vinha de PowerPoints e promessas. Bastou uma sequência de resultados decepcionantes e a maré secou. Hoje, o capital é concentrado, sólido e soberano. As maiores empresas do planeta — Microsoft, Google, Amazon, Apple, Meta, NVIDIA — não apenas possuem caixa bilionário, como reinvestem seus próprios lucros em pesquisa, chips e infraestrutura. Nenhuma depende de financiamento externo para manter seus laboratórios ou treinar modelos. O que há de inflado não é o preço das empresas, mas a ansiedade coletiva em medir o futuro com métricas do passado.

Falar em “bolha de IA” é confundir euforia financeira com transformação estrutural. Bolhas estouram quando o ar dentro delas é só expectativa. Mas o que se acumula agora é matéria densa: data centers, semicondutores, modelos fundacionais, pipelines de pesquisa, legislações e tratados internacionais. Há algo de geopolítico nesse movimento. Os Estados Unidos e a China disputam a soberania cognitiva do século, a União Europeia regula, a Índia escala, e o Brasil tenta encontrar seu espaço. Essa corrida é menos sobre startups e mais sobre território mental. Cada país, cada corporação, tenta garantir que não ficará dependente do outro para pensar, processar e decidir.

O erro é tratar a IA como produto de mercado, quando ela é infraestrutura civilizacional. É um novo tipo de eletricidade, invisível mas essencial, que começa a permear tudo: saúde, educação, justiça, defesa, entretenimento. A especulação pode inflar expectativas em torno de algumas empresas, mas o vetor de fundo é irreversível. Quando a internet quebrou, em 2001, os cabos de fibra óptica já estavam enterrados, os servidores já estavam ligados, e o mundo já tinha aprendido a viver online. A crise destruiu narrativas, não redes. Agora ocorre o mesmo. Mesmo que o investimento em startups de IA desacelere, a pesquisa acadêmica, o gasto público e a automação corporativa continuarão a subir. O P&D americano foi claro: o estouro das pontocom foi apenas uma pausa. A curva da inovação não recuou.

O que realmente morre em momentos como este é o discurso de abundância sem custo. Nas pontocom, a promessa era que “crescer rápido bastava”. Na IA, a ilusão é que “escalar modelos resolve tudo”. Em ambos os casos, a realidade aparece quando a conta de energia e de dados chega. A diferença é que, agora, quem paga a conta são gigantes que imprimem dinheiro com software e nuvem. A dor é administrável. É um ajuste de maturidade, não uma falência de princípios.

Chamar o presente de bolha serve a dois tipos de conforto. Para os céticos, é um escudo intelectual: se der errado, já estavam certos. Para os entusiastas, é uma desculpa emocional: se der certo, “sobreviveram à bolha”. Ambos erram o ponto. O hype não está na IA, está na histeria em torno dela. Criou-se uma nova economia da ansiedade, onde cada oscilação de mercado é lida como prenúncio de um novo “inverno”. Só que o verdadeiro inverno, se vier, será simbólico: uma pausa narrativa antes da próxima grande etapa da automação humana.

A história repete o padrão com outro sotaque. Nos anos 2000, investia-se em “endereços.com”. Agora investe-se em “modelos.ai”. Mas a substância é diferente. O que estava por trás da internet era comunicação; o que está por trás da IA é cognição. A primeira conectou pessoas; a segunda começa a conectar raciocínios. O impacto é muito mais profundo e mais lento, porque mexe na base da linguagem, da criatividade e da decisão. E, ao contrário da internet nascente, a IA já nasceu institucionalizada: amparada por universidades, fundos soberanos e políticas industriais. Mesmo que o mercado esmurre o teclado e grite “bolha!”, o sistema não vai desinflar. Ele vai se adaptar.

A questão, portanto, não é se há uma bolha, mas o que fazemos com ela. Porque bolhas também têm função. Elas geram excesso, e o excesso financia aprendizado. O estouro é só o ajuste de velocidade. Quando o ar escapa, o que sobra é conhecimento acumulado, infraestrutura construída e novos hábitos cognitivos. A bolha das pontocom ensinou a programar, a armazenar, a comunicar. A “bolha” da IA está nos ensinando a pensar em escala.

Talvez o termo certo não seja “hype de IA”, mas “hype da bolha de IA”. Estamos obcecados em encontrar um ponto de ruptura para confirmar a velha crença de que o mercado sempre exagera. Pode ser verdade no curto prazo, mas é míope no longo. O capital se move em ciclos, a tecnologia se move em vetores. O capital sobe e desce; a tecnologia se acumula. O medo da bolha é o preço que pagamos por tentar entender um fenômeno exponencial com instintos lineares.

A história não se repete, ela evolui. Assim como a internet saiu do crash de 2001 mais robusta, a IA sairá de qualquer correção mais integrada à vida cotidiana. E quando olharmos para trás, o que chamamos hoje de bolha talvez seja visto apenas como o custo natural de um salto civilizatório. O problema nunca foi o ar que enche a bolha, mas o que aprendemos a fazer com o oxigênio depois que ela estoura.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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